Mas vamos falar dos meus primeiros dias? :D
Bom, eu odiava tudo. Odiava estar aqui. Odiava as ruas sujas, os prédios caindo aos pedaços, meu apartamento empoeirado. Queria o Rio de Janeiro, minha casa, minha cama, meu irmão. Pensava: "Meu Deus, onde me meti? Vou morrer de tristeza!". Por 10 dias chorei ininterruptamente. Acordava para trabalhar e tomava banho chorando. No final do dia, tomava banho para dormir e chorava mais um pouco. Quando ninguém estava olhando, lá se ia mais choro. Queria falar com todos os amigos o tempo tempo para apaziguar aquela solidão. Queria falar com a família o tempo todo para apaziguar aquela angústia. A hora mais feliz era a hora do Viber. (Deus abençoe o Viber!) Era só ouvir a voz de Andrea, do meu pai, do Magno, do vovô que eu já estremecia e, é claro, abria o berreiro. Daquele doído, do fundo, com soluço, catarro, tudo que eu tinha direito. Que vergonha!
Eu achava que aquilo nunca ia passar, de tão intenso. Seriam 7 semanas querendo voltar para casa todos os dias, aparentemente. Eu me lembro que eu perdia horas olhando para o teto analisando possibilidades de ir embora mais cedo. "Quanto será que custa para adiantar a passagem?", "O que meu pai vai achar disso?", "Ai, não, meu pai vai me matar!", "Mas se eu ficar aqui eu vou morrer!". Segurei as pontas, Brasil! No fundo, eu sabia que eu simplesmente não podia desistir. Não tinha força o suficiente para desistir. Eu quis muito esse intercâmbio, me planejei por meses, envolvi toda a minha família na expectativa da viagem, e depois de 1 ou 2 semanas voltaria de mãos vazias? Sem concluir a minha missão? Queria mais que tudo voltar, mas não queria voltar vencida.
Então fui indo com o vento, Los Hermanos, Whatsapp e Viber. Meu kit salva-vidas. Depois de 15 dias já conseguia nadar sozinha nesse mar mediterrâneo que antes apavorava, e comecei a me esquecer dos Los Hermanos, do Whatsapp, do Viber. Papai (beijo, pai!) me dizia: "Esquece um pouco aqui, vive a sua vida aí, se envolve". Sou obediente, obedeci. Uau! Funcionou!
O problema era que eu cheguei aqui com uma expectativa pisciana! Antes mesmo de desembargar no aeroporto Borg el Arab, o filme do meu intercâmbio já tinha rolado inteiro na minha cabeça, e lá estava eu aplaudindo a exibição de pé, extasiada. Meu trabalho seria incrivelmente incrível, a cama do meu quarto vai ter esse lençol. Minha parede, essas fotos de casa. Os meus novos amigos vão ser divertidíssimos e todo mundo vai me visitar no Brasil em um ou dois anos. As roupas que vou usar são essas coloridas aqui, lá compro mil lenços. Pensei em tudo, porque é isso o que eu faço. Aos pouquinhos fui vendo aquele filme sendo desconstruído, a realidade retirando elementos daquela cena que eu havia orquestrado. Já não era o maestro. Um dia meu aqui, Luiza me mandou um e-mail que me ajudou muito, sobre as leituras dela: "Sidarta dizia algo como, eliminar nossos apegos (desejos, expectativas e autopreservação) é a chave para eliminar as frustrações, que causam o sofrimento". Era isso. Me livrar dos meus apegos construídos no Brasil para parar de sofrer no Egito, para apreciar o Egito. E isso vale para toda uma vida. Faz favor de lembrar, Naiara.
No início eu me agarrava no trabalho com uma força de Sansão, e o fim do expediente era o fim do horizonte. O trabalho e as crianças me distraíam, me mantinham ocupada. Lá pelas três e meia da tarde, era só abrir a porta do apartamento que o pânico me invadia. Mas depois daqueles 10 dias iniciais não precisava contar só com o trabalho. Tudo foi aos pouquinhos ganhando peso, importância. Apreciava as minhas caminhadas, a vista. O grupinho com quem eu comecei a sair toda noite, o nosso santo chá às 2 horas da manhã no café local da minha rua. As meninas com quem eu dividia o quarto. A galera da AIESEC, as pessoas na rua. A independência (me preocupar com a troca do dinheiro, comprar comida no mercado, lavar minhas roupas, ajudar a cuidar sozinha da casa...).
E então comecei a me apaixonar pelo Egito. As duas semanas de choro foram seguidas por três semanas de amor. Justo. Vai ver foi oração da minha avó (beijo, vó), amém. Voltar para casa nem pensar... viver aqui era pura excitação! Voltava da escola e mal tinha tempo para comer e me arrumar, simbora para a rua! Era um tal de pegar um táxi para o parque, pegar um táxi para o shopping, pegar um táxi para o castelo. Aquela alegria de ver uma coisa diferente pela janela do carro, sorriso bobo. 5 pounds cada um nessa corrida, 10 pounds cada um naquela outra cara. Um dia com Tanu, Gianlucca. Outro dia com Carlos, Covee, Kris. Ou talvez Rahwani, Lesley, Shahera. Não pertencia ainda a um grupo, então perambulava em todos, até que era bom. Dormir às 3, 4 da manhã para acordar às 8. 6 horas de sono nunca mais. Os egípcios não dormem, e a gente não dormia como eles.
Todo dia um café, restaurante, bar novo. Todo dia conhecia gente nova. Que coisa maluca! Que coisa maneira! No meu país é assim, no meu país é assado. Como é a pronúncia certa do seu nome mesmo? Esse é impossível, desisti. No meu apartamento não tem água, tem no seu? Como é o seu projeto? Não começou? Tá odiando? Eu to amando, mas é tão cansativo! Fala com Amgad, falou? Avisou seu comitê da AIESEC local? Vai fumar shesha? Pêssego ou melancia? Quem namora quem? A pizza aqui é boa? Esse restaurante é caro? Onde vamos assistir o próximo jogo da Copa? Quando é o do Brasil? Vamos começar a planejar nossa viagem pro Cairo? Você não vai por quê? Rússia, México, Colômbia, Inglaterra, Itália, Índia, China, Grécia, Canadá, Singapura, tinha de tudo.
Por fim, sosseguei. Haja fôlego! Não dá para passar o intercâmbio todo no primeiro carrinho da montanha-russa. Na sexta semana já estava acostumada com os cheiros, os cantos do meu quarteirão. Última semana do projeto, um mix de ansiedade boa e ruim. Já estava cansada (6 horas por dia cuidando de criança e se reunindo à noite com os amigos não é mole não!), mas sabia que ia sentir saudade quando acabasse. Estava estabelecida aqui, meu grupinho era esse - e depois veio a Verônica. O refrigerante perdia gás e virava suco. Viajei para descontrair, acabou sendo o lugar mais incrível que já conheci. Aquele lugar, com aqueles amigos, tudo certo. Estava feliz.
E agora, a sétima semana. A última. A sensação é como estar no limbo, entre um lugar e outro. Ainda estou no Egito, mas olho para a minha experiência como se ela já estivesse na gaveta da memória. Talvez porque não tem mais projeto, os amigos foram embora. Preencho os dias com qualquer coisa, na espera da minha partida. Amanhã talvez viaje por uns dias, talvez não, vamos ver. Me sinto muito conectada com o Brasil, na iminência de voltar ao lar, à rotina. Agora meus pés estão aqui, mas meu coração já foi para casa. Em seis dias meus pés estarão em casa, e meu coração viajará para cá vez e outra. Não sou mais completamente de um lugar só. Minha experiência me rachou, como a Terra em evolução. A América se separou da África, agora continentes diferentes, mas vou comprar pernas de pau e vou sempre pisar nos dois.


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