quarta-feira, 30 de julho de 2014

Copa do mundo

Quem se lembra do evento que criei no Facebook para arrecadar figurinhas da Copa do mundo para os meus aluninhos egípcios?

Fiquei surpresa, foi um sucesso, muito mais do que eu esperava. Criei o evento para ser uma mão na roda, para não precisar fazer repetidamente o mesmo pedido/discurso para todo o amigo que eu encontrasse pelos corredores da faculdade, na carrocinha de cachorro quente ou na sorveteria em Niterói. O intuito era só dizer: "Ei, amigos, comprei um álbum da Copa para dar de presente a um aluno meu do Egito. Me doa um pacotinho de figurinha - ou R$2 para eu comprar um? Não consigo comprar muitos sozinha, me ajuda?". Achei que arrecadaria uns 50 pacotes de uns 25 amigos, talvez. Mas o evento foi compartilhado, visto por quem eu nunca vi na vida, e arrecadei uns 40 álbuns e mais de mil figurinhas (não sei se veio alguma do Neymar... se eu tivesse visto, pegaria para mim, desculpa). Recebi várias mensagens de pessoas dizendo que adorou a minha ideia, que mesmo singela já era uma boa iniciativa de engajamento social... Caramba! Jura, gente? Fiquei feliz com tanto apoio, encorajada. Deu até vontade de criar outro evento no Facebook para levar comida ao Quênia ou Etiópia. Talvez, quem sabe?

Peguei o avião com uns 15kg na minha mala só de doações. Agradeci na época pelo Facebook, mas reitero aqui com sinceridade: Obrigada a todos os que ajudaram, a todos os que curtiram a ideia, a todos os que me apoiaram. Sozinho a gente faz pouco ou quase nada.

O esquema foi esse: eu auxiliava Mrs. Menah nas aulas de inglês. Contávamos uma história à turminha e ao final fazíamos umas brincadeiras para testar se eles compreenderam a história, se absorveram o novo vocabulário. Vi ali uma oportunidade de presenteá-los ao mesmo tempo que encorajava o aprendizado. "Who wants stickers??? But first we will check if you remember the story. Do you remember the story? Can you tell me the story?" E assim foi. Seif vinha à frente e se recontava a história direitinho, ganhava álbum e figurinhas. Time A, time B, vamos testar quem lembra o significado dessas palavras que ouvimos na história. As crianças do time vencedor ganhavam álbuns e figurinhas. Os olhinhos brilhavam de excitação quando viam a minha bolsa plástica de mercado com os pacotes, juro por tudo o que é mais sagrado. Ás vezes rolava uns choros, e eu dava até para quem não ganhou a brincadeira (escondido da professora casca grossa).

Duas vezes por semana, nas aulas de inglês, a turma voltava para casa com a mochila mais pesada de figurinhas do Brasil. Presente que todos vocês deram comigo. Bravo, amigos! Por um mês e meio, no Ramadan muçulmano, fomos todos papais e mamães noeis no Egito. Que exótico! Que bonito!

Adham, o melhor aluno da classe,
levando o álbum embalado carinhosamente pelo Victor Rodrigues,
GIPo da AIESEC Rio

Khadija e Juahreia, as líderes da girls gang,
e inteligentes que só

Johanna, coisa fofa da Miss Naiara

A gang - ao mesmo tempo bagunceira, ao mesmo tempo obediente

Adendo:

Além do meu projeto (conto dele aqui), existem muitos outros sendo desenvolvidos pela AIESEC Alexandria. O Guzour, dos meus amigos Kris e Veronica, é um projeto de marketing, com o intuito de organizar eventos de caridade em orfanatos e áreas pobres da cidade. Bacaníssimo. Não me contentei só com o Teach to Learn e em dar aulas na minha escola, e me juntei a eles em alguns eventos. Eu era uma intrusa, na verdade, mas a galera do projeto me recebeu tão bem que parecia que eu fazia parte do time. Fiz amizades com as meninas egípcias da Academy el Kheir, ONG responsável pelo contato dos intercambistas da AIESEC com os orfanatos, e agora saímos juntas, elas me dão mil caronas, mil informações sobre cultura, uns amores. Nos eventos que participei com eles, distribuí cesta básica a uma família pobre numa village afastada da cidade (similar as nossas favelas), brinquei com meninas órfãs, dancei com dezenas de crianças numa festa que promovemos para o Ramadan... Quase posso dizer que fiz dois projetos aqui, um com crianças de classe média, outro de caridade. Mais um presente, mais um aprendizado.

O fato é que eu ainda tinha uns 15 álbuns de figurinhas aqui comigo e alguns pacotinhos que reservei para eles. Todos os meus alunos já haviam ganhado. Levei comigo nos eventos desse outro projeto e distribuí às crianças carentes. A primeira condição de ser criança é ser criança, e os olhinhos brilharam do mesmo jeito, na escola e no orfanato. Obrigada de novo, Brasil. Como dizia o meu evento no Facebook, vocês me deram figurinhas da Copa do mundo e fizemos crianças egípcias sorrirem. Dezenas. Do alto a baixo. De todas as condições sociais.

Festa para as crianças na village, região carente de Alexandria


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