segunda-feira, 14 de julho de 2014

Em busca de 190 pecinhas

Eu lembro que em 2008 eu tinha um blog. E nesse blog, apenas dois textos. E desses dois textos um único bom. Eu, lá com os meus 14 anos de idade e hormônios à flor da pele, escrevi sobre o quanto achava absurdo o fato de nascermos, crescermos e morrermos no mesmo lugar. Embravecida, olhava para as famílias estabelecidas ao meu redor - pai nascido no Rio, mãe nascida no Rio, filhos nascidos no Rio - e os chamava mentalmente de medíocres. Em alguns dias - perdoa o drama, toda a culta é dos hormônios - até enojada. "Por que, meu Deus, se existe um mundo todo para explorar? Por que limitar a vida aqui?" Achava uma tolice, um desperdício. Tinha a certeza (aquela dos 14 anos) que comigo seria diferente. Queria ver o mundo, conhecer gente de todo o canto, ser uma cidadã global. Queria casar com um Irlandês e criar meus filhos na Patagônia. Meu coração nômade não me permitiria permanecer muito tempo num mesmo lugar. 

No começo de 2014 meu pai plantou na minha mente a sementinha de ir fazer intercâmbio voluntário. Topei. Queria ir para a Índia, mas me disseram "Tudo menos Índia", "Por que Índia?", "Cuidado na Índia!". Desisti. Queria algo exótico, e o Egito de Nefertiti, Ramsés e Tutancâmon se apresentou como opção. Topei. Queria trabalhar com crianças carentes, mas o projeto no orfanato só começaria no final de Julho, pertinho do recomeço das minhas aulas. Desisti.
Me sugeriram ir para Alexandria e trabalhar no projeto verão de uma escola ensinando inglês e cultura brasileira. Topei.
Topei mais do que desisti, e aqui estou. Quem diria! Egito. Nunca pensei que um dia viria parar aqui, mas o 13 de junho de 2014 me deu esse presente. Meu pai me deu esse presente. Deus me deu esse presente. 
Obrigada, obrigada, obrigada.

Tudo é novo e inebriante. Mal essa começou e já imagino quais podem ser as próximas aventuras. Tranco a faculdade e começo outro projeto? Volto para casa, começo a trabalhar e guardo dinheiro para ir ao México? Mas e a Índia? E a Irlanda? E a Patagônia? E a China? O que tem lá? O mundo é mais do que o Rio de Janeiro e Alexandria. Quero ser um mosaico de tudo o que eu vi e aprendi, e para crescer eu preciso ir em busca de muitas pecinhas de muitos lugares que coladas umas a outras compõem o meu eu fragmentado de verdades. Já tenho de 6 países, mas o mundo tem de 196 para dar. E eu topo ir em busca de outras 190, mesmo que seja impossível, porque quero sempre topar mais do que desistir.

Quem construiu Tebas, a das sete portas?
Nos livros vem o nome dos reis, mas foram os reis que transportaram as pedras?
Babilônia, tantas vezes destruída, quem outras tantas a reconstruiu?
Em que casas da Lima Dourada moravam seus obreiros?
No dia em que ficou pronta a Muralha da China para onde foram os seus pedreiros?
A grande Roma está cheia de arcos de triunfo. Quem os ergueu? Sobre quem triunfaram os Césares?
A tão cantada Bizâncio só tinha palácios. Para os seus habitantes?
Até a legendária Atlântida na noite em que o mar a engoliu viu afogados gritar por seus escravos.
O jovem Alexandre conquistou as Índias. Sozinho?
César venceu os gauleses. Nem sequer tinha um cozinheiro ao seu serviço?
Quando a sua armada se afundou Filipe de Espanha chorou. E ninguém mais?
Frederico II ganhou a guerra dos sete anos. Quem mais a ganhou?
Em cada página uma vitória. Quem cozinhava os festins?
Em cada década um grande homem. Quem pagava as despesas?
Tantas histórias, quantas perguntas.

- Bertold Brecht
(Perguntas de um Operário Letrado)

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